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Acesso à saúde 'na pele': um relato de lá do Tocantins

Algumas semanas atrás, o coordenador comercial da SAS Smart, Roy Bento, esteve no Tocantins para acompanhar uma visita técnica para o lançamento do MuSAS, projeto do Grupo SAS, no entorno de uma das mais belas paisagens do país, o Jalapão. O relato a seguir mostra, a partir de histórias humanas, a dor que milhões de pessoas no Brasil enfrentam para ter acesso à saúde.


Roy saiu da vila pesqueira do Preá, onde mora, no município de Cruz (CE), rumo ao interior do país, em uma viagem que durou 30 horas "de porta a porta", incluindo escalas aéreas e uma longa jornada de carro entre a capital do Tocantins, Palmas, e a cidade de São Félix, que fica a 250 km de distância e é a porta de entrada de atrações turísticas do Jalapão. Confira o relato:



 

Por Roy Bento


Quando fiz a viagem de casa até São Félix do Tocantins (TO), que fica a cerca de 1,5 mil km de distância do litoral cearense, onde moro – ou quase 23 horas de viagem por estradas, sem parar – pude ter de novo contato com o tamanho real da dificuldade de acesso à saúde no país.



Projeção do globo terrestre mostra o Brasil em destaque e, sobre o mapa do país, as cidades de Cruz (CE), São Paulo (SP), Curitiba (PR), Brasília (DF) e Palmas (TO) interligadas, nesta ordem, por uma linha vermelha
Os trechos percorridos de avião: 5 aeroportos e todas as regiões do Brasil

A viagem começou com um pinga-pinga de escalas aéreas, que começou em Jericoacoara (CE), passou pelo Sudeste, pelo Sul, pelo Centro-Oeste e chegou enfim a Palmas (na região Norte!) muitas horas depois. Mas como ainda faltava ir da capital do Tocantins até São Félix, a viagem estava longe do fim. O último trecho da jornada durou cerca de 6 horas – com asfalto em apenas 60% do trajeto e só algumas pequenas cidades cortadas pela rota.


Depois do trecho asfaltado, vieram mais três horas de muita terra: enquanto as obras para ampliar a asfaltagem da estrada não terminam, elas levantam muita poeira – e quando eu falo de terra, eu falo de muita, muita terra! Se você tem problemas respiratórios e pretende viajar por lá, deixo aqui minha recomendação: leve um hidratante nasal!


Para rodar na terra, o ideal é viajar em um carro com tração – mas, quando este luxo não é uma opção, carros de menor porte com seus pneus murchos (estratégia para driblar os efeitos do rali involuntário e não atolar) e motos desafiam os buracos e grandes trechos de areia fofa.



Imagem mostra estrada de asfalto, com duas vias, ladeada por vegetação rasteira e sob um céu azul com poucas nuvens; foto é tirada a partir de um carro, é possível ver parte do capô logo em primeiro plano
Asfalto: nada ao redor por quilômetros na estrada até São Félix (foto: Roy Bento)

Enquanto eu percorria a estrada, uma coisa me vinha insistentemente à cabeça: como qualquer coisa consegue chegar em São Félix? Como os são-felenses se deslocam até a capital para necessidades básicas que não conseguem sanar na cidade? Após quatro dias mergulhado na comunidade local, hoje entendo um pouco mais e posso contar sobre a realidade dessa cidade – um cenário que infelizmente se repete no Brasil todo.


Mas vamos contar esta história do começo!

São Félix do Tocantins foi uma das cidades visitadas pela SAS Brasil em 2019, durante o Sertões daquele ano. Mais de 100 voluntários percorreram centenas de quilômetros de estradas, partindo de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, até Aquiraz, no Ceará, para levar acesso à saúde especializada com alegria, acolhimento e amor! Como o trajeto era muito longo, os voluntários foram divididos em duas equipes, que percorreram caminhos diferentes: uma delas, com 30 pessoas, foi até a porta do Jalapão naquele ano.


A SAS Brasil, para quem ainda não conhece, é o braço sem fins lucrativos do Grupo SAS. Desde 2013, a entidade atua com a realização de ações de alto impacto, positivo e duradouro, que só é possível porque a instituição trabalha lado a lado com lideranças comunitárias e com entidades do poder público das cidades que visita. Em São Félix, uma dessas lideranças era a Emmanuela, a Manu.


O trabalho feito pelos voluntários foi ímpar, com milhares de atendimentos em uma cidade que, na época, não tinha mais do que 1,2 mil habitantes! Além dos carros levantando poeira, ficou marcada também, e principalmente, a ida de profissionais da saúde que não se acanharam frente às distâncias e dificuldades de trajeto para levar acesso à saúde especializada.

Passaram-se quatro anos e a Manu nos procurou. Como líder comunitária e dona de uma farmácia na cidade, ela queria levar acesso à saúde para moradores vizinhos. Ela conta que já havia recebido convites de empresas de telemedicina, mas que não ficou satisfeita com os serviços. E assim, numa feliz coincidência, mais uma vez nossas histórias cruzaram caminhos e propósitos.


O desafio do acesso em cidades pequenas

São Félix do Tocantins tem pouco mais de 1,7 mil habitantes, segundo o Censo do IBGE. É uma cidade minúscula quando comparada aos quase 5,6 mil municípios brasileiros: no país, só 78 cidades são ainda menores; no Tocantins, entre 139 cidades, é quase uma das últimas, ocupando a 132ª posição. Os desafios de acesso à saúde em cidades como a que visitei são inversamente proporcionais ao seu tamanho.


Imagem mostra bebê mordendo objeto sentado no colo da mãe e olhando para a câmera; ao fundo, há 2 homens observando; todos estão dentro de um carro
Lotação: mãe, bebê, dois homens ao fundo... das 9 pessoas a bordo, só o motorista e eu não íamos a Palmas por motivos de saúde (foto: Roy Bento)

Nada poderia ilustrar melhor esta realidade do que a viagem que eu fiz, já no retorno a Palmas, para tomar os voos que me levariam de volta ao Ceará. No carro, éramos 9, mas só o motorista e eu não íamos para a capital por motivos de saúde:

  1. Uma mãe levava seu bebê de 6 meses para exames pediátricos de rotina, com previsão de retornar no mesmo dia: 12 horas de estrada e gastos de R$ 600;

  2. Duas senhoras, uma de 55 anos e outra de 62, tinham consulta marcada no cardiologista: cada uma delas gastaria cerca de R$ 400 só na consulta e exames;

  3. Dois primos, um homem e uma mulher, iam fazer exames para poder operar da catarata no dia seguinte – as cirurgias seriam feitas por uma ONG, mas a hospedagem na capital e o deslocamento até lá seriam por conta deles;

  4. O 9º passageiro era um homem que viajava para um simples exame de sangue: chegamos em Palmas às 14h e ele estava em jejum desde a véspera.


Esses passageiros ilustram a realidade de milhões de brasileiros que precisam se deslocar para ter acesso a atendimentos e procedimentos médicos, um fenômeno a que se deu o nome de ambulancioterapia no Brasil. O brasileiro se desloca em média 72 km para chegar até um médico e esse número pode chegar a 400 km em regiões ainda mais afastadas ou para procedimentos de maior complexidade. Para quem vive em São Félix do Tocantins, o deslocamento até a cidade referência é de mais de 260 km.


Os são-felenses e outros milhões de brasileiros não precisam contar histórias como essas. Ninguém quer – nem deveria precisar – viajar dezenas de quilômetros e horas e horas por uma consulta médica provavelmente agendada por uma demanda que não foi tratada e que acabou se agravando depois de tanto tempo sem cuidado.


Antes de deixar a cidade, ouvi muitos relatos dos habitantes de São Félix: "Gasto 400 reais para ir e voltar de Palmas", me contou um. "Uma consulta pode sair de 220 a 600 reais", relatou outra. Um terceiro lembrou que o deslocamento é de "pelo menos" 6 horas para ir e outras 6 para voltar – depende muito das condições do caminho e do veículo que faz o trajeto. "Às vezes vou a Palmas só para um exame de sangue, pois no município a cota é quase toda usada com as gestantes", ouvi de outro. "Médico aqui na cidade às vezes tem, às vezes não tem – depende do dia e da hora, a gente nunca sabe".


Essa realidade já pode ser mudada com redução de distâncias por meio da telessaúde, ampliação do acesso a tecnologias de conectividade em comunidades distantes e carentes, democratização da distribuição de profissionais especialistas pelas diferentes regiões do país e dentro delas. Há muitas ideias.


Você pode entrar em contato com o Roy Bento no WhatsApp (19) 98840-7420 ou por e-mail, escrevendo para comercial@sassmart.com.br. "Estou há 20 anos na área comercial e há 4 dedicando meus talentos e minhas forças para um propósito que eu descobri no meu coração: a transformação do acesso à saúde no Brasil – e porque não, no mundo?" Fale com o Roy para conhecer o projeto MuSAS e falar sobre as soluções da SAS Smart!


Foto de capa: Roy Bento/SAS Smart; imagem do mapa com as escalas gerada pelo site Great Circle Mapper

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